setembro 23, 2004

LISBOA BY NIGHT!

Fui tirar umas fotos nocturnas,
Levei comigo a minha máquina digital como companheira de viagens e boa contadora de histórias. Ela regista momentos que vistos no futuro transformam o passado num mutante, que se move a cada novo olhar.
Comecei por captar a ponte Vasco da Gama pelo seu ângulo mais privado, as partes inferiores de uma ponte são sempre complexas, e ninguém lhes parece dar importância.

Segui a minha caminhada até ao Cais do Sodré, tentei fotografar um velho que dormia ao lado de um bar. Despertou e perguntou-me o que queria, respondi-lhe que lhe queria captar a alma, ele recusou, era a única coisa que ainda tinha um sentido de posse, e não queria partilhar com ninguém. Perguntei-lhe porque não partilhar a única coisa que ainda era verdadeiramente sua. Respondeu-me de pronto, "porque raio tenho de ser eu a ceder, já cedi em tanta coisa na minha vida, e olhe onde estou a dormir?" Não me atrevi a responder-lhe. Dei-lhe 10 euros para comer qualquer coisa, e visualmente desejei-lhe boa sorte.

Subi a rua do Alecrim em busca de captar expressões, pelo caminho duas raparigas vomitam e uma grita: "altamente, ganda moca". Perguntei à que ainda conseguia falar, se as suas amigas estavam bem, respondeu-me que não tinha nada a ver com isso, ofereci-lhes um pacote de lenços de papel para se limparem, aceitaram e agradeceram com o olhar... palavras? essas não existiram.

Chego ao Largo do Camões, fotografo a praça, a brasileira, entrada de estação de metro nos ângulos que na altura me pareciam os melhores. Sou interrompido por uma voz sombria que me diz : "ó bacano tens uns trocos?", respondi :"eu não, e tu?", resposta imediata : "perguntei primeiro, deixa-te de merdas". Realmente ele tinha perguntado primeiro, mas ainda assim perguntei :"porque tenho de ser eu a ceder?" , não me soube responder , virou costas e disse :"é com cada maluco.." .
Por vezes existem perguntas que são feitas para não se obter respostas e já tinha aprendido qualquer coisa esta noite.

Entro no Bairro Alto , entro nos bares, bartis, portas largas, capela, três porquinhos, incógnito, arroz doce, entre muitos outros e não necessariamente por esta ordem, e quem eu encontro no terceiro ou quarto bar? As minhas novas "amigas" da rua do alecrim, quiseram devolver-me o único lenço de papel que sobrava num gesto de agradecimento. Recusei. Para mim uma oferta nunca se deve devolver.
As três amigas visivelmente recuperadas vá lá saber-se como, convidaram-me para ir tomar algo ao arroz doce, chegados lá, a ti rosa no seu melhor grita lá do fundo, "ó meu cabrão, já andas com três ao mesmo tempo , sai um pontapé na cona para este gajo que já não o via à meses" , pensei no meu mais profundo pensamento, caramba sou amado no bairro alto!

Horas depois e já a noite ia longa, achei que seria hora de voltar, despedi-me de metade do Bairro Alto que entretanto me reconheceu, de frequentador assíduo passei a ser um cliente esporádico, mas as amizades essas são intemporais e não se apagam facilmente.

Desci a rua do Alecrim e no seu final escuto uma voz : "ó rapaz, ainda me quer captar a alma?", respondi-lhe "A sua alma ficará captada para sempre na minha mente."

E foi a minha mente que mais fotografou nesta noite.

Publicado por cachucho em setembro 23, 2004 01:50 AM | TrackBack
Comentários

O que nos marca é o que nos toca.
Mas nem todo o que nos toca nos marca.
É preciso observar sentindo.

Afixado por: mfc em setembro 23, 2004 04:22 AM

são sempre as "pequenas" coisas que nos marcam mais. e muitas das vezes estão nos locais menos imagináveis.

Afixado por: soundstorm em setembro 23, 2004 12:16 PM

:)

Afixado por: cachucho em setembro 23, 2004 12:53 PM

o meu amigo está um poeta, a sério gostei. E depois fizeste-me recordar os tempos do arroz doce, sai um ... grandes mocas.
Obrigado meu

Afixado por: abutre real em setembro 23, 2004 10:36 PM

Que inveja! E eu que gosto tanto de LIsboa! Pena que hoje esteja mais insegura. Sabe? Ainda me lembro de no inicio dos anos oitenta, sair da casa de Amalia às 6 da manhã, e percorrer a Rua de Sao Bento, até à Av da Liberdade, a pé, e ver a cidade acordar, tal qual um Fado, no madrugar de Alfama. Ai que belos tempos eu vivi, nessa ..."Lisboa de outras eras, dos cinco reis das esperas, e das toiradas reais, das festas, das seculares procissões, dos populares pregões matinais, que já não voltam mais..."in 'Lisboa Antiga'-Raul FerrãO e José Gallhardo.
( Ah mas que pirosa eu sou. lá estou eu de lágrima ao canto do olho...)

Afixado por: valeria em setembro 24, 2004 03:11 AM
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